Minhas
mãos amassavam e desamassavam um papel molhado pelas lágrimas que encontrei no
chão assim que chegara a minha casa. A falta de coragem me impedia de ler
qualquer palavra que estivesse escrita ali. Não precisava ter poderes mágicos
para saber cada frase contida naquele papel. Ainda era possível sentir seu doce
perfume vindo daquela folha avulsa.
Respirei
fundo quase dez vezes para poder conseguir começar aquela leitura, e minha
coragem foi seguida das seguintes palavras:
“Mundo
Real, 14 de outubro de 1968.
Meu amor,
Comecei esta carta especificando o lugar onde vivemos, pois sei que você deve
estar com ódio de mim agora, por não entender todas as minhas razões para fazer
o que estou fazendo – e sei que você possui motivos para isso, mas tente me
entender antes de fazer qualquer julgamento. Eu lhe imploro.
Perdoe-me por desistir desta forma. Não sou tão forte quanto você. A ideia de
lutar contra o mundo, correndo o risco de acabar na completa solidão, me deixa
completamente apavorada. Eu sei, eu sei que você vai dizer que estaria ao meu
lado, mas não vou repetir agora minha opinião sobre relações eternas – elas não
existem. E, quando acabasse, eu estaria sozinha, num buraco escuro, sem nenhuma
corda para me segurar, e eu só cairia, cairia e cairia. Sinto pavor só de
pensar em não ter um chão para pisar – mesmo você tendo sido esse meu solo por
tanto tempo.
Eu queria que as coisas pudessem ser diferentes; queria mesmo. Eu queria poder
acordar todas as manhãs enrolada em seus braços e sentir seu cheiro doce
perfumando todo o quarto. Eu queria poder preparar-lhe aquele café que você
tanto gosta e depois voltar para cama e assistir qualquer filme ocasional
enquanto nossas pernas se esquentam. Eu queria poder fazer tudo ao seu lado,
mas, para mim, as coisas não são tão fáceis assim. Não tenho toda essa audácia
de achar que podemos mudar o mundo; somos só nós contra todos – éramos, certo?
Meus medos tomam conta de mim e não me deixam seguir, pois, além do medo de
enfrentar tudo, ainda há o medo de lhe perder. Meu bem, lhe imploro, entenda-me
e perdoe-me por tudo. Um dia, quem sabe, eu seja um terço do que você é e lute
por seu amor, que é tudo o que importa no mundo para mim, e que com certeza
perderei agora, mas quero lhe dizer que não é por falta de sentimento, e sim
por excesso da única coisa que sempre sobrou em mim: medo.
Eu te amo.
Para sempre sua.
Gabrielly.”
E
da minha boca saiu apenas um sussurro:
Meu
amor você nunca perderá. Volte quando puder, minha pequena.

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