Me *-*

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segunda-feira, 21 de maio de 2012

A carta da despedida.



Minhas mãos amassavam e desamassavam um papel molhado pelas lágrimas que encontrei no chão assim que chegara a minha casa. A falta de coragem me impedia de ler qualquer palavra que estivesse escrita ali. Não precisava ter poderes mágicos para saber cada frase contida naquele papel. Ainda era possível sentir seu doce perfume vindo daquela folha avulsa.
Respirei fundo quase dez vezes para poder conseguir começar aquela leitura, e minha coragem foi seguida das seguintes palavras:

Mundo Real, 14 de outubro de 1968.
   Meu amor,
  Comecei esta carta especificando o lugar onde vivemos, pois sei que você deve estar com ódio de mim agora, por não entender todas as minhas razões para fazer o que estou fazendo – e sei que você possui motivos para isso, mas tente me entender antes de fazer qualquer julgamento. Eu lhe imploro.
  Perdoe-me por desistir desta forma. Não sou tão forte quanto você. A ideia de lutar contra o mundo, correndo o risco de acabar na completa solidão, me deixa completamente apavorada. Eu sei, eu sei que você vai dizer que estaria ao meu lado, mas não vou repetir agora minha opinião sobre relações eternas – elas não existem. E, quando acabasse, eu estaria sozinha, num buraco escuro, sem nenhuma corda para me segurar, e eu só cairia, cairia e cairia. Sinto pavor só de pensar em não ter um chão para pisar – mesmo você tendo sido esse meu solo por tanto tempo.
  Eu queria que as coisas pudessem ser diferentes; queria mesmo. Eu queria poder acordar todas as manhãs enrolada em seus braços e sentir seu cheiro doce perfumando todo o quarto. Eu queria poder preparar-lhe aquele café que você tanto gosta e depois voltar para cama e assistir qualquer filme ocasional enquanto nossas pernas se esquentam. Eu queria poder fazer tudo ao seu lado, mas, para mim, as coisas não são tão fáceis assim. Não tenho toda essa audácia de achar que podemos mudar o mundo; somos só nós contra todos – éramos, certo?
  Meus medos tomam conta de mim e não me deixam seguir, pois, além do medo de enfrentar tudo, ainda há o medo de lhe perder. Meu bem, lhe imploro, entenda-me e perdoe-me por tudo. Um dia, quem sabe, eu seja um terço do que você é e lute por seu amor, que é tudo o que importa no mundo para mim, e que com certeza perderei agora, mas quero lhe dizer que não é por falta de sentimento, e sim por excesso da única coisa que sempre sobrou em mim: medo.
                                                        Eu te amo.
                                                                                  Para sempre sua.
                                                                                                                 Gabrielly.”

E da minha boca saiu apenas um sussurro:
Meu amor você nunca perderá. Volte quando puder, minha pequena.

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